sábado, 21 de fevereiro de 2015

Por que anarquistas e “anarco”-capitalistas não podem ser aliados




Por A Division by Zer0

Uma das coisas que surge repetidamente quando alguém na direita liberal percebe a grande hostilidade dos anarquistas quando esses ultraliberais se apropriam do rótulo “anarquista” para si é a acusação de “prejudicar o movimento” por não estar disposto a olhar as diferenças do passado e trabalhar uns com os outros por uma sociedade sem estado. O argumento é que uma vez que tanto o anarquistas quanto “anarco”-capitalistas desejam uma sociedade sem estado, porém simplesmente com um diferente modo de produção (socialismo contra capitalismo, respectivamente), nós temos, pelo menos, um objetivo em comum. Nós devemos trabalhar juntos pela: Abolição do estado.

A primeira vista isso faz um pouco de sentido. Se nós dois queremos uma sociedade sem estado e se nós estamos dispostos a tolerar a organização produtiva de cada um dentro de suas respectivas áreas, então por que estamos lutando, discutindo e criticando uns aos outros quando unidos nós poderíamos estar muito bem tanto convencendo as pessoas quanto minando o estado?

A resposta é simples: Estratégia.
É verdade que os anarquistas não tentariam impor de forma violenta o socialismo libertário sobre outras áreas e outras pessoas. Isto é simplesmente contrário a toda a teoria por trás do anarquismo. Como tal, é de se esperar que após uma possível revolução, em algumas partes do mundo as relações capitalistas iriam permanecer e algumas dessas partes poderiam até se aproximar do modelo “anarco”-capitalista. Contudo, uma revolução não irá ocorrer por si só. As áreas que se transformam em anarquista ou “anarco”-capitalista irão ocorrer – se moverá para qualquer direção sem estado, pelos métodos que foram utilizados para trazer para a população em geral o ponto de ebulição da revolta.

E estes métodos são inerentemente opostos.

Os socialistas libertários de todos os tipos (sim, incluindo anarquistas individualistas anti-capitalistas) geralmente promovem estratégias de Ação Direta e Ajuda Mútua. Isso significa que eles apoiarão sindicatos, greves, tomada de controle de fábricas, cooperativas, bancos mútuos, comunas e tudo mais. Eles serão até mesmo menos hostis sobre atos estatais que dão mais poder para a classe trabalhadora[1]. Por outro lado, o argumento deles será baseado em assuntos que apóiam tais caminhos. Isso incluiria coisas como o fato de que a psicologia evolutiva humana é condutora da Ajuda Mútua, a validade da Teoria do Valor-trabalho e a consequente teoria da exploração, o imperativo moral pela auto-determinação e auto-gestão, uma hostilidade contra todos os tipos de dominação e hierarquia e assim por diante.

Por outro lado, os “anarco”-capitalistas, mesmo distintamente sem estratégia, são ideologicamente contrários à maioria dessas medidas que trariam uma sociedade para uma revolta libertária socialista. Eles são contra sindicatos (pelo menos a maioria deles são), contra a expropriação da terra e do capital por aqueles que trabalham nela, consideram que cooperativas são “ineficazes”, se opõem veementemente sobre todos os atos estatais que aumentam a seguridade social (enquanto são menos hostis aos atos estatais que simplesmente protegem mais a propriedade privada), etc. Ademais, as suas bases ideológicas os obrigam a atos como apologistas ao sistema através de sua rejeição da Teoria do Valor-trabalho, o apoio ético pelo direito à Propriedade Privada, acumulação e usura, a permissão ou até mesmo apoio da hierarquia e dominação enquanto elas forem “voluntárias” e assim por diante.

Mesmo que a estratégia que eles tem acabam sendo contrárias aos princípios anarquistas, dado que eles defendem a consolidação da força e discernimento à terceiros, é uma ideia nitidamente anti-ação direta.

Tudo isso deve tornar óbvio que existe uma brecha intransponível entre estes dois movimentos[2] que impede ambos de trabalharem juntos para mudar o sistema, dado que eles simplesmente estariam puxando em direções opostas e contrariando uns aos outros. Muito parecido com a diferença prática entre Propriedade Privada e Posse, o mesmo acontece com a diferença de estratégia e teoria que tornam a cooperação desses dois campos impossíveis.

Claro, se por simplesmente estar disposto a se fortalecer o bastante, muitas pessoas poderiam magicamente fazer aparecer repentinamente uma sociedade sem estado, então “unir forças” poderia fazer sentido. Mas o mundo não é um conto de fadas. É o caminho que trilhamos, os métodos que defendemos e as estratégias que usamos que definem que tipo de sociedade sem estado nós teremos no final.

Então “anarco”-capitalistas, ultraliberais e outros todos os tipos de proprietaristas, por favor, não nos peça para cooperar e aceitá-los como “companheiros anarquistas”. Nossa possível coexistência em uma futura sociedade sem estado é irrelevante quando, no mundo real, toda a sua visão de mundo é contra-produtiva para o que nós sugerimos.

Notas:
[1] Anarquistas não apóiam usar o estado para empurrar adiante regulamentações, mas não se opõem às regulamentações que beneficiam a classe trabalhadora a princípio. Tal regulamentação, mesmo que imperfeita, pode ser o resultado de ação direta ou pode dar algum tempo pra pensar aos trabalhadores para solicitarem mais e obterem aquilo que esperam.
[2] Bem, um movimento e uma ideologia, embora não há realmente qualquer movimento real atrás dos “anarco”-capitalistas.

Traduzido por Rodrigo Viana. Para ler o original clique aqui.


A Divided by Zer0 é desenvolvedor de jogos e blogueiro.

Veja também:

13 comentários:

vinicius soares disse...

ridiculo

Anônimo disse...

Esse texto é uma vergonha e ainda tenta sujar o nome do anarquismo individualista.
O anarco capitalismo pode não ser tão bom, mas é muito melhor que o anarquismo coletivista.

O VERDADEIRO ANARQUISMO É O INDIVIDUALISTA/ANARQUISMO EGOÍSTA, qualquer tipo de anarquismo que defenda a imposição de sistemas econômicos ou moral coletiva é um falso anarquismo.

Administrador disse...

Anônimo

Primeiro: se você realmente entendeu o texto, vai perceber que ele não se coloca como porta-voz do anarquismo individualista (seja lá o que você queira dizer com isso), mas com o anarquismo como um todo.

Segundo: se você realmente estudou ou estuda o anarquismo, vai perceber que o coletivismo, visto pelo anarquismo, é uma forma de organização social, econômica e política e de modo algum é um mecanismo de repreender a individualidade das pessoas. Pelo contrário, o coletivismo no anarquismo é uma forma de apoderamento individual. Sugiro você ler mais sobre o assunto pra não cair nas falsas acusações direitistas sobre o termo coletivismo.


Terceiro: nenhuma vertente anarquista, seja coletivista, comunista, mutualista, feminista, etc, se baseia em interações humanas impostas. Se não é voluntário, então não é anarquismo. E em nenhum momento o texto diz transparecer que está falando de um suposto "anarquismo forçado".

Quarto: anarquismo é, antes de tudo, uma teoria política. Assim, não existe "verdadeiro anarquismo" como você quer passar, como uma moral absoluta (no caso, a egoísta). Muito embora depois você depois diz ser contra uma moral imposta. Enfim.

O que existe são formas diferenciadas de políticas anarquistas de abolir as estruturas de dominação social. Deste modo, anarquismo individualista/ egoísta não é anarquismo por assim dizer, mas um conceito ético. Conceito este ao qual não possui problemas com aqueles anarquistas que abraçam as vertentes coletivista ou comunista.

Armando Aguiar disse...

Vocês deveriam deixar de usar o nome anarquista.
Mesmo que vocês consigam (e não nós) acabar com o Estado. Uma vez que isso ocorra, as pessoas livremente irão trocar coisas. E o livre mercado irá florescer. E, a não ser que vocês criem um Estado para impor a sua visão de anarquismo, naturalmente o capitalismo irá ressurgir e vocês verão a sua teoria ser morta na prática.
Capitalismo é liberdade, socialismo é escravidão. Ignorar isso é ignorar a realidade.

Anônimo disse...

Caro administrador, você acha mesmo que anarco comunistas são voluntaristas?

egoísmo não é uma "moral absoluta",é a negação da moralidade....e mais, não caio no conto dos direitistas, eles também são coletivistas.

Anônimo disse...

Eu gosto muito de vários textos daqui, mas ultimamente você vem se aproximando destes malditos anarquistas coletivistas que apoiam medidas estatistas e promovem quebra quebra...como sempre esses otarios são os idiotas uteis dos marxistas assim como os liberais vem sendo dos conservadores.

Mesmo que libertarios defendam direitos artificiais como se fossem naturais, isso é bem menos nocivo que coletivistas,não concordo com você, coletivismo é sim a imposição da moral nos indivíduos e a propria direita pratica isso Também.

Jordy Malaquias disse...

Em uma parte do texto, o autor diz que anarquistas costumam ser menos "hostis" a regulamentações que de fato beneficiem a classe trabalhadora. Gostaria de ver ao menos um exemplo.

andrévic, RJ Vic disse...

A

Paul Tarc disse...

Não podem ser aliados e não podem sequer serem chamados de anarco-capitalistas. Ou é uma coisa ou outra. As duas ao mesmo tempo é impossível. E o nome desse blog (Esquerda Libertária) tbm é um equívoco, pois anarquismo ñ é esquerda. Rompemos c/ a esquerda há mto tempo, no séc XIX, na Internacional de 1872. Tentar manter essa definição é saudosismo e abrandamento da luta.

Jodiel disse...

É incrivel como alguns ultraliberais querem se intitular anarquistas. Defendem hierarquias privadas e deturpam a longa e imensa tradição anarquista. Nos EUA sao irrelevantes. Aqui, tem muitos desavisados que pegam essa teoria sem sentido como novidade. Nunca poderá existir anarquismo com capitalismo. Anarquismo nunca defendeu individualismo, mas individualidade com respeito ao coletivo.

Anônimo disse...

EU já vi anarco-sindicalistas defendendo cotas, que não deixa de ser uma intervenção estatal, se dizem contra o estado mas ao mesmo tempo o apoiam quando ele tenta "consertar" as coisas, vai entender...

Pedro disse...

Vão estudar história, geografia, filosofia e sociologia cambada de coxinhas! Anarquismo e anarco-capitalismo não são sinônimos! Ambos na prática são utópicos para serem aplicados! E outra: anarquismo de esquerda e socialismo de estado (marxismo) não são a mesma coisa!!!!

vickron disse...

comentário de pseudo anarquista capitalista... que não sabe nem o significado da palavra anarquia...
anarquia ou anarquismo é como ateísmo, é a-teísmo, anti-teísmo.
a-narquia é a-hierarquia, anti-hierarquia...
seja hierarquia política, econômica, religiosa, militar, social, seja qual for o tipo de hierarquia, o a-narquismo é anti-hierarquização.
Capitalismo tem patrão e peão, tem empregador e empregado, tem um mandando e outro obedecendo, então não é anarquismo...
Livre troca, livre mercado, não é capitalismo, tem um fornecedor e um cliente, tem um prestador de serviços e um consumidor de serviços, a relação é entre iguais, e nenhum é obrigado a obedecer ao outro.
E a coletivização é dos bens comuns, porque, ninguém é dono de nada neste mundo, ninguém tem o direito de cercar um recurso escasso, finito, não renovável, comum, apenas para si mesmo, e privar o restante da comunidade de acessar aquele recurso, cujo uso deve ser compartilhado. Agora, os frutos, os recursos renováveis, infinitos, os bens de consumo, que nós podemos produzir, e dividir de forma justa, esses bens, frutos do trabalho, cada um fica com a sua parte, e cada um cuida do que é seu... Ninguém produz terras pra se intitular como proprietário delas. mas quem se deu ao trabalho de plantar e colher, é dono da colheita. Claro, se na prática a terra deve ser compartilhada, uma parte da colheita também deve, mas não é um indivíduo do alto de uma hierarquia quem vai determinar como, e sim a comunidade, e comum acordo.
Você entende isso como comunismo? Comunitarismo? Mutualismo?
É, parece mesmo... Entenda como o planeta ser propriedade privada de uma sociedade particular aonde todos somos sócios de cotas equivalentes.
Anarcocapitalismo é um paradoxo.